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10 Nov, 2025

Três dias na estrada: como é a viagem de ônibus mais longa do Brasil, do RS ao Pará

Rota percorre 4.548 km, cruza seis estados e precisa de nove motoristas. Saiba o trajeto, preço e curiosidades.

                                                             Alceu Nunes Cavalheiro é motorista há 25 anos e há cerca de dois anos e meio percorre esse trajeto — Foto: Duda Romagna/g1 RS

Alceu Nunes Cavalheiro é motorista há 25 anos e há cerca de dois anos e meio percorre esse trajeto — Foto: Duda Romagna/g1 RS

Já pensou embarcar em um ônibus e só chegar ao destino mais de três dias depois?

Essa é a realidade da rota mais longa do Brasil, que sai de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, e vai até Santarém, no Pará. A viagem cruza seis estados e cerca de 65 municípios ao longo de 4.548 km, com duração média de três dias e quatro horas. Cuiabá, capital do Mato Grosso, marca a metade do trajeto. Veja abaixo o trajeto completo.

A viagem é operada pela empresa Ouro e Prata. São três horários diários de saída da capital gaúcha: 6h30, 11h e 18h30. O último é o mais demorado, com três dias, quatro horas e 45 minutos de percurso – e também o mais procurado, de acordo com os funcionários da empresa. O valor da passagem começa em R$ 1.952,99, com variações conforme o horário, dia e a dinâmica de preços.

O conforto é parte importante da viagem, feita em um ônibus semi-leito. Segundo a ANTT, esse tipo de veículo precisa ter reclinação mínima de 45 graus no encosto e uma distância mínima de 28 cm entre poltronas, quando a poltrona da frente está reclinada ao máximo.

Outros requisitos obrigatórios são apoio para as pernas e oferta de água mineral à vontade. Nos ônibus que fazem esse trajeto, alguns diferenciais são internet a bordo e entradas USB nos assentos para o carregamento de dispositivos.

Há paradas programadas para café, almoço e jantar, além de banhos a cada 500 km, em média. Ainda assim, o banheiro do ônibus é higienizado ao menos 18 vezes por viagem. Nove motoristas atuam no percurso.

O g1 acompanhou o início de uma dessas viagens. O motorista Alceu Nunes Cavalheiro, 52 anos, atua há 25 anos na profissão e há cerca de dois anos e meio percorre esse trajeto. Ele dirige o trecho entre Porto Alegre e Chapecó, que dura cerca de oito horas e meia.

“É gratificante. Eu faço com gosto e gosto do que eu faço”, afirma Alceu.

Segundo ele, o ônibus é abastecido uma única vez no Mato Grosso. Para ele, os maiores problemas são os imprevistos, como acidentes ou desvios. Mesmo assim, afirma que o percurso tem boas rodovias para dirigir. “As estradas hoje fluem bem melhor do que um tempo atrás. Até pertinho de Santarém, é tudo asfaltado”, diz.

Ele também compartilha situações inusitadas que já presenciou durante a rota:

“Teve passageiro que fez confusão com o ônibus. Em vez de descer do que estava, subiu no que estava voltando pra terra dele”.
Mesmo assim, Alceu afirma que a maioria dos viajantes é pontual. “É raro precisar correr atrás de alguém. Acho que é o medo de perder o ônibus que faz dar tudo certinho”, disse. Ele ainda observa que o contato com diferentes pessoas torna o trabalho mais interessante: “Cada viagem é uma história diferente”.

Cada viagem pode transportar até 120 passageiros, mas cada ônibus tem 44 lugares. Isso porque são raras as ocasiões em que alguém faz a rota completa, de acordo com Jonathan Fernandes, encarregado de agência da Ouro e Prata em Porto Alegre. Há passageiros que desembarcam e embarcam no veículo em diversas paradas.

Entre os passageiros de uma das viagens que saiu de Porto Alegre estava Rafael Custódio, 27 anos, e sua companheira. Os dois viajavam até a cidade natal: Pato Branco, no Paraná. “Já fiz várias viagens longas. Hoje está confortável. O ônibus permite descansar, diferente do carro, que cansa muito”, disse. Ele mora em Canoas a trabalho e considera o transporte rodoviário vantajoso, inclusive para o bolso.

“Financeiramente, sai quase elas por elas, mas o desgaste do carro não compensa”, avalia.

Sirlei, 54 anos, e Moisés, 70 anos, fazem o trajeto de ida e volta à capital mato-grossense uma vez por ano. “Os motoristas são muito atenciosos. O banheiro é sempre limpo e tem água à vontade”, relatam.

Ônibus sai de Porto Alegre três vezes por dia — Foto: Duda Romagna/g1 RS

Ônibus sai de Porto Alegre três vezes por dia — Foto: Duda Romagna/g1 RS

Eles contam que, em algumas paradas, o tempo acaba sendo pouco para fazer tudo o que precisam.

“Tem vezes que compro comida e tenho que comer dentro do ônibus”, diz Moisés.

Ainda assim, consideram a viagem confortável. “Já estamos acostumados”, afirma Sirlei. "Nada a reclamar", completa Moisés.

Infográfico - Rota percorre 4.548 km, cruza seis estados e precisa de nove motoristas; saiba o trajeto, preço e curiosidades — Foto: Arte/g1

Infográfico - Rota percorre 4.548 km, cruza seis estados e precisa de nove motoristas; saiba o trajeto, preço e curiosidades — Foto: Arte/g1

Publicado por A.D

Geral

03 Nov, 2025

Jovem presa injustamente por 6 anos morre de câncer dois meses após ser absolvida por júri no RS

Damaris Vitória Kremer da Rosa, 26 anos, teve pedidos de revogação da prisão negados pela Justiça. Ela morreu 74 dias depois de ser considerada inocente por júri.

                            Prontuário médico de Damaris Vitória Kremer da Rosa — Foto: Reprodução   Damaris Vitória Kremer da Rosa morreu aos 26 anos — Foto: Arquivo Pessoal

Jovem presa injustamente por 6 anos morre de câncer dois meses após ser absolvida por júri

Damaris Vitória Kremer da Rosa morreu aos 26 anos — Foto: Arquivo Pessoal

Uma jovem que ficou presa injustamente por 6 anos morreu dois meses após ser absolvida pelo júri. Damaris Vitória Kremer da Rosa, 26 anos, não resistiu às complicações de um câncer no colo do útero diagnosticado enquanto estava na cadeia. Ela foi sepultada na última segunda-feira (27), no Cemitério Municipal de Araranguá (SC).

Conforme os registros da Secretaria de Sistemas Penal e Socioeducativo, aos quais o g1 teve acesso, Damaris foi presa preventivamente em agosto de 2019, por suposto envolvimento no homicídio de Daniel Gomes Soveral, ocorrido em novembro de 2018, em Salto do Jacuí, no Noroeste do RS.

A denúncia foi oferecida à Justiça em julho de 2019. Na ocasião, a Promotoria alegou que Damaris "ajustou o assassinato juntamente com os denunciados" e manteve "conduta dissimulada, um relacionamento com a vítima, de modo a fazê-la ir até Salto do Jacuí, local estipulado para a execução".

A defesa sustenta que Damaris apenas contou ao namorado que teria sido estuprada por Daniel. Em retaliação, ele teria assassinado o homem e ateado fogo no corpo.

Ao longo do processo, foram protocolados pedidos de revogação da prisão de Damaris, que receberam pareceres negativos do Ministério Público e foram indeferidos pela Justiça. Ela relatava problemas de saúde, como sangramento vaginal e dor na região do ventre.

"Apesar da suposta fragilidade na saúde da ré, tal alegação é pautada em mera suposição de doença, tendo em vista que os documentos médicos juntados nos autos apenas apontam a indicação de ingestão de medicamentos, sem apontar qualquer patologia existente e sem trazer exames e diagnósticos", argumentou o MP.

"Não há demonstração suficiente de a ré estar extremamente debilitada por motivo de doença grave, na medida em que os documentos médicos são meros receituários médicos, sem apontar qualquer patologia existente e sem trazer exames e diagnósticos", pontuou a Justiça.

Tornozeleira e júri

Damaris passou por penitenciárias em Sobradinho, Lajeado, Santa Maria e Rio Pardo. Apenas em março de 2025, a prisão foi convertida em domiciliar. A decisão se deu em razão do agravamento dos problemas de saúde da mulher.

No mesmo mês, foi determinada a instalação de monitoramento eletrônico, conforme ofício expedido. Em abril, a Justiça autorizou, a pedido da defesa, que Damaris permanecesse na casa da mãe, em Balneário Arroio do Silva (SC), com tornozeleira.

"Fiz petições manifestando que ela estava tratando câncer e precisava transitar por hospitais. Ainda, havia a oscilação do peso. Pedi remoção da tornozeleira, mas nenhum desses pedidos foi atendido. Ela foi submetida a raio-x, exames, tudo com tornozeleira", relata a advogada Rebeca Canabarro.

O caso de Damaris foi a julgamento apenas em agosto. O Conselho de Sentença absolveu a jovem de todas as acusações a ela imputadas (ter matado a vítima e ateado fogo no veículo com o corpo dentro). Ela morreu 74 dias depois.

O que é prisão preventiva?

A prisão preventiva está prevista no Código de Processo Penal (CCP), quando o suspeito apresenta:

  • risco à ordem pública;
  • risco à ordem econômica;
  • risco ao andamento das investigações;
  • risco de fuga.

Também deve ser aplicada quando a liberdade do investigado gerar uma situação de perigo para a sociedade.

Linha do tempo

  • 30 de novembro de 2018: Data do crime pelo qual Damaris foi acusada
  • 3 de junho de 2019: Justiça decreta prisão preventiva de Damaris
  • 8 de julho de 2019: MP oferece denúncia contra Damaris à Justiça
  • 10 de julho de 2019: Justiça aceita denúncia contra Damaris
  • 8 de agosto de 2019: Damaris é presa preventivamente
  • Novembro/dezembro de 2024: Defesa pede revogação da prisão preventiva
  • 18 de março de 2025: Prisão preventiva é convertida em prisão domiciliar
  • 9 de abril de 2025: Justiça autoriza cumprimento de prisão domiciliar, com tornozeleira, em SC
  • 13 de agosto de 2025: Júri absolve Damaris
  • 26 de outubro de 2025: Damaris morre em decorrência do câncer

Damaris Vitória Kremer da Rosa morreu aos 26 anos — Foto: Arquivo Pessoal

Damaris Vitória Kremer da Rosa morreu aos 26 anos — Foto: Arquivo Pessoal

O que diz o Tribunal de Justiça do RS

"O Tribunal de Justiça não se manifesta em questões jurisdicionais.

Com relação ao caso, foram avaliados três pedidos de soltura.

O primeiro em 2023, que foi negado pelo magistrado da Comarca, pelo TJRS e STJ em sede de recurso.

Quanto ao segundo pedido, em novembro de 2024, em que a defesa da ré alegava motivo de saúde, a decisão aponta que os documentos apresentados eram receituários médicos, sem apontar qualquer patologia existente e sem trazer exames e diagnósticos.

Em 18 de março de 2025, a prisão preventiva da ré foi convertida em prisão domiciliar, sendo expedido alvará de soltura. A decisão foi motivada pelo estado de saúde da ré, diagnosticada com neoplasia maligna do colo do útero, necessitando de tratamento oncológico regular.

PUBLICADO POR A.D

Fonte G1

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